Bancos Grandes Demais para Falir

Autor(es): 

Raquel de Freitas Oliveira, Rafael Felipe Schiozer e Lucas Ayres B. C. Barros

Ano: 

2011

Artigo em foco: Percepção dos Depositantes sobre Bancos Grandes Demais para Falir durante a Crise de 2008
 
A política de salvar instituições financeiras sistemicamente importantes, usualmente chamadas de grandes demais para falir (too big to fail, em inglês) é considerada prejudicial à estabilidade de longo prazo do mercado bancário, porque ela distorce a competição e enfraquece os incentivos para que os depositantes e outros credores dos bancos monitorem seus riscos. A justificativa usual das autoridades financeiras para o salvamento de grandes bancos é que a falência de um banco importante pode levar a danos a todo o sistema financeiro e possivelmente levar a uma recessão.
 
O estudo “Percepção dos depositantes sobre bancos grandes demais para falir durante a crise de 2008” investiga como a percepção dos depositantes sobre uma política implícita de salvar bancos grandes demais para falir afeta seu comportamento, quando há uma crise financeira. O estudo revela que os bancos de porte pequeno e médio sofreram uma onda de saques a partir de setembro de 2008, logo após a quebra do banco Lehman Brothers, nos Estados Unidos, e que esses recursos foram destinados aos maiores bancos do sistema financeiro nacional (candidatos a serem salvos pelo governo em caso de falência). Mais importante, os indicadores tradicionais de saúde financeira dos bancos (qualidade da carteira de crédito, menor alavancagem e maior liquidez) parecem não ter sido determinantes para a alocação de recursos dos depositantes. Assim, num movimento conhecido como “fuga para a qualidade”, pode-se inferir que os investidores identificam “qualidade” como a possibilidade de salvamento de um banco em caso de necessidade, e não como os fundamentos econômico-financeiros dos bancos.
 
Um dos principais resultados é que a fuga para os bancos grandes foi mais intensa para a parcela de depósitos que não estava segurada pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Comparando diferentes tipos de depositantes, o estudo identificou que o movimento de fuga de bancos pequenos e médios é mais acentuada entre os depósitos de investidores institucionais, seguidos de pessoas jurídicas não-financeiras, e não foi relevante entre as pessoas físicas. Mais do que isso, a maior dependência de investidores institucionais na base de depositantes também foi determinante para o volume sacado dentre os outros tipos de depositantes. Isso indica que pessoas jurídicas não-financeiras podem ter sacado por receio de que os institucionais sacassem seus recursos primeiro.
 
O estudo também observou que as subsidiárias brasileiras dos bancos estrangeiros considerados grandes demais para falir em seus países-sede sofreram menos saques do que os bancos domésticos de pequeno e médio porte, o que pode indicar que os depositantes acreditavam numa política de salvação desses bancos pelos governos de seus países (como de fato aconteceu com muitos deles nos meses seguintes).
 
A implicação principal desse resultado é que, mesmo que a política de salvamento de grandes bancos não seja explícita, a percepção por parte dos depositantes de que tal política será posta em prática, caso necessário, dá aos grandes bancos uma enorme vantagem competitiva: o acesso à liquidez quando esta é mais escassa nos mercados, ou seja, em momentos de crise. Os bancos centrais do mundo todo tem tentado tratar problemas de assunção excessiva de riscos por parte de grandes bancos, mas essa importante distorção competitiva entre os grandes bancos e os demais parece estar sendo relegada a um segundo plano.
 
Entre em contato com o professor Rafael Felipe Schiozer.
 
Conheça as pesquisas realizadas pelo professor Rafael Felipe Schiozer.